se e se rasgar quando uma enorme
presa mordeu seu colete, e então desatou a correr. Outro
crânio ergueu-se na sua frente, o maior de todos os monstros,
mas Arya nem sequer titubeou. Saltou sobre uma fileira de
dentes negros altos como espadas, precipitou-se por entre
maxilas famintas e atirou-se contra a porta.
Suas mãos alcançaram um pesado anel de ferro incrustado na
madeira, e ela o puxou. A porta resistiu por um momento,
antes de começar lentamente a se abrir para dentro, com um
rangido tão alto que Arya teve certeza de que poderia ser
ouvido em toda a cidade. Abriu a porta apenas o suficiente
para se esgueirar e sair para o átrio à sua frente.
Se a sala com os monstros era escura, o átrio era a mais negra
fossa dos sete infernos. Calma como águas paradas, disse Arya
a si mesma, e segundos depois de seus olhos se adaptarem,
percebeu que nada havia para ver além do vago contorno
cinzento da porta que acabara de atravessar. Agitou os dedos
na frente do rosto, sentiu o ar, mas nada viu. Estava cega.
Uma dançarina de água vê com todos os sentidos, lembrou-se.
Fechou os olhos e sossegou a respiração... um, dois, três;
sentiu o silêncio e estendeu as mãos.
Seus dedos roçaram pedras ásperas, sem acabamento, à sua
esquerda. Seguiu a parede tocando levemente a superfície,
avançando com pequenos passos deslizantes pela escuridão.
Todos os átrios levam a algum lado, Onde há uma entrada, há
uma saída. O medo golpeia mais profundamente que as
espadas. Arya decidiu que não teria medo. Parecia já ter
percorrido um longo caminho quando a parede terminou
abruptamente e uma aragem de ar frio soprou seu rosto.
Cabelos soltos agitaram-se levemente contra sua pele.
Vindos de algum lugar, muito abaixo, ouviu ruídos. O raspar
de botas, o som distante de vozes. Uma luz vacilante passou
pela parede, ligeira, e ela viu que se encontrava no topo de
um grande poço negro, um precipício com seis metros de lado
a lado, que mergulhava profundamente na terra. Enormes
pedras tinham sido enfiadas nas paredes curvas para formar
degraus, espiralando para baixo, e mais para baixo, escuras
como os degraus do inferno sobre os quais a Velha Ama
costumava lhe falar. E algo subia, vindo da escuridão, das
entranhas da terra...
Arya espreitou por sobre a borda e sentiu a fria aragem negra
no rosto. Muito abaixo viu a luz de um único archote,
pequeno como a chama de uma vela. Distinguiu dois homens.
Suas sombras se contorciam contra os lados do poço, altas
como gigantes. Conseguia ouvir suas vozes ecoando pela
chaminé acima.
- ... encontrou um bastardo - disse um deles. - O resto virá em
breve. Um dia, dois, uma quinzena...
- E quando souber a verdade, o que vai fazer? - perguntou
uma segunda voz no sotaque fluido das Cidades Livres.
- Só os deuses sabem - disse a primeira voz. Arya conseguiu
ver um filamento de fumaça cinzenta que saía do archote,
contorcendo-se como uma serpente enquanto subia. - Os
idiotas tentaram matar seu filho e, o que é pior, fizeram da
tentativa uma farsa. Ele não é homem que ponha algo assim
de lado. Pode ter a certeza de que o lobo e o leão se atirarão
em breve às gargantas um do outro, quer queiramos ou não.
- É cedo demais, cedo demais - queixou-se a voz com o
sotaque. - De que serviria uma guerra agora? Não estamos
preparados. Faça com que se demore a vir.
- Isto é o mesmo que me pedir para parar o tempo. Acha que
sou um feiticeiro?
O outro soltou um risinho.
- Sim, não mais que isso. - Labaredas lamberam o ar frio. As
sombras altas estavam quase em cima de Arya. Logo depois,
o homem que segurava o archote surgiu no seu campo de
visão, com o companheiro ao seu lado. Arya arrastou-se para
trás, afastando-se do poço, e encostou-se à parede. Prendeu a
respiração no momento em que os homens chegavam ao topo
das escadas.
- Que quer que eu faça? - perguntou o homem, robusto, com
uma capa curta de couro, que levava o archote. Mesmo
calçando botas pesadas, seus pés pareciam deslizar pelo chão
sem um som sequer. Sua cara era redonda, desfigurada por
cicatrizes, e um tufo de barba negra espreitava por baixo do
capacete de aço. Ele usava cota de malha sobre couro fervido,
com um punhal e uma espada curta enfiados no cinto. Arya
sentiu qualquer coisa estranhamente familiar nele.
- Se uma Mão pode morrer, por que não uma segunda? -
respondeu o homem com sotaque e a barba amarela
bifurcada. - Você já dançou essa dança, meu amigo - não era
alguém que Arya tivesse visto antes, disto tinha certeza. Era
enormemente gordo, mas parecia caminhar com ligeireza,
transportando o peso nas bolas que eram seus pés, como o
faria um dançarino de água. Seus anéis cintilavam à luz do
archote, ouro vermelho e prata branca, incrustados de rubis,
safiras, olhos de tigre amarelos e listrados. Todos os dedos
traziam um anel; alguns tinham dois.
- Antes não é agora, e esta Mão não é a outra - respondeu o
homem desfigurado quando entraram no átrio. Imóvel como
uma pedra, disse Arya a si mesma, silenciosa como uma
sombra. Cegos pela luz do archote, os home